quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desventuras no ônibus

O dia havia se arrastado. Ana já estava estressada com tudo que ainda tinha que fazer para a próxima aula. Chegou na escola de manhã e só conseguiu sair no final da tarde. Nem conseguiu ligar para a mãe avisando que não chegaria no horário habitual. Correu para chegar no ponto de ônibus, queria voltar para casa o quanto antes para comer alguma coisa. Nem pode comprar um lanche, pois só tinha o dinheiro exato daquela passagem. Chegando no ponto avistou uma figura conhecida. Uma colega que morava perto da sua casa, Helô. Conversaram um pouco e decidiram pegar o mesmo ônibus.

O transporte não demorou, em menos de cinco minutos as duas estavam a caminho de casa. Ana demorou um pouco para notar os trajes da colega. Ela vestia o uniforme azul da escola, uma calça jeans rosa e um tênis também rosa. Carregava duas bolsas. Uma rosa com chaveiros por todos os lados e a outra azul, muito maior. Dava para ver que esta última tinha quebrado a alça original e a menina amarrou uma fita também azul para carregar a enorme bolsa.

Ana estava muito cansada para dar conselhos de moda à colega. Preferiu olhar a paisagem pela janela para não rir. Virou um pouco a cabeça e avistou a maior barata da sua vida. Assustou-se e gritou. Gritou mais ainda e Helô acompanhou. Todos no ônibus tomaram um susto, inclusive o motorista que freou bruscamente quase causando um desastre.

O bicho logo foi morto por um homem no banco de trás e a confusão acabou. Ana ainda estava com o coração acelerado, pensando na situação cômica. Todos no ônibus olhavam horrorizados para ela. Teve até que trocar de lugar para fugir dos olhares. As duas se sentaram no fundo do ônibus. Ana ficou mais aliviada, a casa já estava perto agora. Faltavam mais uns quinze minutos.

O ônibus ficou lotado em pouco tempo. Ela teria que se apressar para chegar à saída, ou então não conseguiria passar. Despediu-se da colega e saiu andando. Foi quase impossível chegar no meio do veículo. Havia gente em pé em todos os lugares, parecia uma massa unida. Tentou empurrar os que estavam na frente, mas era inútil. Por um momento pensou que iria morrer asfixiada. Fez mais um pouco de força e ficou diante de uma senhora extremamente gorda. Não conseguiria passar por ali. Rezou para ela descer no mesmo ponto que ela.

O ônibus parou e a senhora não desceu. Tentou de todas as formas passar por ela, mas foi em vão. O ônibus já tinha começado a andar quando ela conseguiu com muito esforço se livrar da mulher e chegar na porta do ônibus.

Esperou o próximo ponto, ainda daria para voltar andando para casa. O transporte novamente parou. A porta se abriu e ela se preparou para descer, mas uma fila de idosos já esperava do lado de fora para subir. Dessa vez era impossível sair dali. Esperou os outros subirem e tentou descer, mas já era tarde demais. O motorista acelerou. Ela gritou o mais alto que pode, mas ninguém pareceu ouvir.

Já estava desesperada. O lugar era longe demais, precisaria pegar um outro ônibus para chegar em casa. Viu a colega, assim como ela tentando se desvencilhar da gorda. Com ela foi mais difícil ainda, por causa das duas bolsas. Pediu dinheiro emprestado para Helô e esta disse que tinha uma nota de um real, mas havia um pequeno problema.

Quando viu o dinheiro da colega logo desfez o esboço de felicidade que tinha no rosto. Estava rasgada ao meio. Ninguém aceitaria aquilo. Helô então gritou: “Alguém tem uma fita adesiva?” Ana ficou vermelha. A colega parecia uma doida. Ela gritou mais uma vez e recebeu uma resposta. Um rapaz tinha a tal fita.

Helô pegou a fita e colou a nota. Logo depois o ônibus parou e as duas finalmente desceram. Mais uma vez se despediram. Ana atravessou a rua e pegou outro ônibus. Deu o dinheiro dobrado, para o cobrador não perceber nada.

Chegou em casa mais tarde do que pensava. Antes de colocar a chave na fechadura a mãe já abriu a porta enfurecida e perguntando onde ela esteve até aquela hora. Com sono, nem se importou com a bronca da mãe e andou até o quarto. A mãe foi atrás gritando e perguntando onde tinha errado na criação da menina, que pouco se importou com o que a outra dizia. Certamente ficaria de castigo por um bom tempo, mas estava por demais cansada para explicar a situação. Deitou na cama e teve seu merecido sono.