A cidade era pacata. Os moradores eram pacatos. Até os animais eram pacatos. Nada acontecia, a não ser um casamento ou a festa da padroeira. O fato foi que tudo mudou por causa de um simples gato.
Começou quando o tão adorado gato preto de seu Antônio morreu. Ele era muito apegado ao bichano e não aceitou sua morte. Passava horas chorando e se lamentando pela morte do amigo. O sofrimento era tanto que nem conseguiu se livrar do cadáver. Deixou-o no quintal, esperando que o bicho se levantasse e viesse ao seu encontro. Chegava até mesmo a oferecer comida para o animal morto.
Passaram-se dias, semanas, meses e seu Antônio continuava a levar a comida do seu gato. A esposa até estranhava. O cadáver estava ali ao relento por muito tempo e sequer fedia, nem mesmo os urubus vieram comer os restos do bichano.
Até seu Antônio percebeu esses sinais, o que fez sua esperança aumentar mais ainda. Talvez o gato nem tivesse morrido. Talvez estivesse apenas fraco demais para se levantar. Continuou levando comida para o animal e até conversava com ele. Pedia para o gato responder, para comer, para fazer qualquer coisa para provar que não havia morrido. Foi então que num belo dia, quando o dono novamente pediu para ele dar um sinal de vida, o gato falou:
— Estou com fome!
Seu Antônio mal podia acreditar no que ouvira. Saiu correndo de felicidade e foi contar para a esposa. O gato falou! O gato morto falou! A mulher nem deu ouvidos, há tempos pensava que o marido estava doido. Começou até uma discussão para dar um fim no bicho, aquela história havia ido longe demais. Seu Antônio, sem dar ouvidos à esposa, voltou ao quintal, pegou o gato e levou para ela ver. Mandou ele falar de novo, e ele falou:
— Estou com fome!
A mulher desmaiou. Agora ela era que estava doida.
A notícia se espalhou rapidamente pela cidade. Em pouco tempo todos já sabiam da existência do gato falante. Todos iam visitar o gato, a princípio por curiosidade e depois por diversão. O gato virou um ponto turístico da cidade. Pessoas viajavam de longe só para ver o bendito felino. O animal ficou famoso. Aparecia em jornais, revistas e até na televisão. Era convidado para casamento, bailes e festas de 15 anos. Passeava de carro com o prefeito e viajava para outros lugares. Ergueram uma estátua do gato. Cientistas vinham de todos os lugares para examiná-lo, mas nada explicava o fato dele falar, principalmente depois de morto. Só podia ser um milagre, ou algo pior...
De repente todos sabiam histórias do animal. Tudo que acontecia ali passou a ser culpa do gato: a falta de chuva, o vento forte, o calor, doenças. O gato até foi acusado de ter engravidado a vizinha de seu Antônio.
As pessoas ficaram revoltadas. Não deixariam um gato trazer mais desgraças para suas vidas pacatas. Aquilo só podia ser obra do “coisa ruim”, pensavam. O gato passou a ser temido. Com medo, resolveram acabar com o felino. Seu Antônio tentou escondê-lo, mas não adiantou. Pegaram o gato e o prenderam numa cela da delegacia. O gato agora era criminoso. Disseram que só o soltariam quando ele estivesse livre do “espírito que o possuía”.
Padres, pastores e até pais-de-santo tentaram exorcizar o gato, mas não deu certo. Levaram-no para interrogatório, mas ele apenas dizia:
— Estou com fome!
Começaram a surgir lendas de que o gato comia gente. Mais medo. Pessoas abandonavam suas casas temendo a morte.
Formou-se um esquadrão de extermínio ao gato. Mais de cinqüenta pessoas se reuniram na praça da cidade e rumaram para a delegacia com um único objetivo: matar o desgraçado do gato. Sem misericórdia cumpriram seu objetivo.
Passado o susto, tudo voltou ao normal. A cidade voltou a ser pacata. Os moradores voltaram a ser pacatos. Até que a gata de dona Maria, esposa de seu Antônio, deu a luz a mais alguns gatos pretos.