sexta-feira, 29 de maio de 2009

Brasileirinho

Ainda estava escuro. O sol aparecia timidamente por detrás da fileira de barracos. Jorge já estava acordado. Tomou banho com a água que recolhera da chuva da noite anterior e saiu. Refeição só teria durante a noite, quando a Igreja distribuía sopa.

O dia, como todos os outros, foi extremamente difícil e tedioso. Durante a manha ficou vagando pelos bairros da grande cidade procurando as pessoas certas. Não era uma tarefa fácil. Ficava horas e mais horas esperando que alguém o “ajudasse” a sair da situação em que se encontrava. Essa ajuda, porém não era dada de bom grado. A pessoa em questão deveria contribuir com dinheiro ou algo de valor, caso contrário seria furada com um canivete ou com um pedaço de vidro: Jorge era assaltante.

Essa não era a vida que escolheu, mas afinal, o que estaria reservado para um sujeito feio, pobre, gago, fanho e lerdo? Talvez poderia ter sido professor em uma escola qualquer, mas ele mal terminou o Ensino Fundamental. Assaltante era a alternativa mais viável encontrada.

Estava pensando em como a profissão tornava-se mais árdua e com baixos rendimentos. As pessoas andavam cada vez com menos dinheiro, e quando a quantia era alta, encontravam os lugares mais estranhos para escondê-la. Haviam também as senhoras classudas que achavam estar fazendo uma enorme caridade “doando” cinco reais quando na verdade o celular é que fora pedido; e aquelas velhinhas que disparavam spray de pimenta ao menor toque. Isso sem falar na ocorrência, que estava cada sempre aumentando.

Ainda estava absorto em seus devaneios quando aquela senhora gorda apareceu. Ele a observou longamente. O ônibus que ela parecia estar esperando talvez demorasse, não era preciso pressa. Ele a abordaria como de costume. Primeiro chegaria com o velho discurso: “ eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando ou fazendo uso do tóxico, mas estou aqui pedindo a sua contribuição para me ajudar a sustentar meus três filhos e minha esposa doente...”, depois que ela pegasse a bolsa, ele a tomaria e sairia correndo. O problema é que não aconteceu exatamente como o esperado.

Assim que a mulher viu aquela figura bizarra, deu-lhe um chute nas partes baixas e acertou sua cara com a cobiçada bolsa. O que haveria ali dentro? Pedras, com certeza. Imediatamente Jorge caiu e não conseguiu mais abrir os olhos. Pelo menos não viu aquele ser volumoso esmurrando e chutando-o. Aliás, nem sentiu dor. Depois dos primeiros chutes seu corpo já estava totalmente dormente.

Acordou no corredor de um hospital público. Disseram-lhe que tivera muita sorte em sair do estado de coma sem nenhuma seqüela grave. Nem parecia que teve um traumatismo craniano. Algumas semanas depois poderia voltar para casa e retomar a vida normal, tendo apenas que tomar uns poucos remédios tarja preta.

Ainda estava escuro. O sol ainda aparecia timidamente  por detrás da fileira de barracos. Outro dia normal estava apenas começando e Jorge sabia que deveria continuar. Um dia as coisas melhorariam, afinal ele é brasileiro e não desiste nunca.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Vida Difícil


Foi na última chuvarada do ano, e a noite estava preta. O homem estava em casa; chegara tarde, exausto e molhado, depois de uma viagem de ônibus mortificante, e comera; sem prazer, uma comida fria. Vestiu o pijama e ligou o rádio, mas o rádio estava ruim, roncando e estalando.

Lembrava-se de como foi seu dia. Horrível, para variar. Quando acordou de manhã cedo, a água acabou e então não tomou banho. A única coisa que comeu foi um ovo queimado, velho e frio e o que tinha para vestir eram roupas imundas.

O resto do dia também não foi um mar de rosas. Foi despedido do emprego pela aparência suja. Além disso, teve que prestar depoimento na delegacia por ter matado o cachorro do vizinho com veneno para ratos, não se arrependia, porém. Aquele cão morto era a única coisa boa no seu dia, já que sempre que ele saia de casa, o bicho tentava mordê-lo.

Voltou para casa na chuva e ainda um carro passou por cima de uma poça d’água e o molhou. Pegou um ônibus lotado e quando chegou em casa, aquele rádio roubado do vizinho não funcionava.

Sua vida não podia piorar, pensava; até que viu a casa alagada devido às várias goteiras. Surtou. Ligou o forno a gás, mas não o acendeu. Enfiou a cabeça e esperou até a morte chegar. Esperou tanto que dormiu. Quando acordou lembrou que o gás tinha acabado há mais de um mês.